Ouro Digital ou apenas Hype? O Caso de Anguilla que deve acordar Portugal
Diz-se frequentemente que, em tempos de mudança radical, uns choram enquanto outros vendem lenços. Mas na era da Inteligência Artificial (IA), a metáfora precisa de uma atualização urgente: enquanto uns discutem se o “hype” é real, outros estão a comprar a fábrica de lenços, a automatizar a logística e a dominar o mercado antes que a concorrência consiga sequer configurar o ChatGPT.
Se ainda acredita que a IA é um tema exclusivo do departamento de TI ou uma curiosidade para entusiastas de tecnologia, tenho uma notícia desconfortável: a sua empresa pode estar a cometer o erro mais caro da sua história. A IA não é uma evolução tecnológica; é um sismo estratégico. E, como em todos os sismos, os que se recusam a reforçar os alicerces agora serão os primeiros a ver o teto cair amanhã. A indiferença não é uma posição segura; é uma sentença de obsolescência programada.
A lição das Caraíbas: onde o ócio deu lugar ao negócio
Olhemos para Anguilla. Uma pequena ilha no Caribe, com apenas 15 mil habitantes e praias de postal. No papel, não tinham armas para lutar na guerra tecnológica mundial. No entanto, possuíam um ativo adormecido: o domínio de internet .ai.
Enquanto o mundo empresarial despertava para a febre da Inteligência Artificial, Anguilla não se limitou a observar de longe. Perceberam que o seu “quintal digital” era de repente, a morada mais cobiçada do planeta. O resultado é quase inacreditável: um aumento de 50% nas receitas do governo. Quase metade do orçamento do país provém agora da venda de domínios para startups e gigantes tecnológicas que procuram o selo de inovação.
Isto não foi um acidente; foi uma jogada de mestre.Foi visão de oportunidade. Eles não precisaram de construir chips ou programar algoritmos de última geração; eles souberam posicionar-se estrategicamente no ecossistema da mudança, capitalizando sobre o que já tinham.
O espelho para Portugal: Estamos a dormir na Reforma?
O caso de Anguilla é um murro no estômago da nossa complacência. Quantas empresas portuguesas, em setores tradicionais como o calçado, o têxtil ou o agroalimentar, estão sentadas sobre ativos valiosos? Dados históricos, processos únicos ou nichos de mercado, que poderiam ser revitalizados pela IA, mas preferem continuar a olhar para o lado?
O problema crónico em Portugal é a cultura do “esperar para ver”. Esperamos que a tecnologia fique mais barata, que os outros testem primeiro, que surja um subsídio.
Mas na economia da IA, quem espera não alcança; é atropelado. A tecnologia não é um custo, é uma ferramenta de soberania económica. Se uma ilha isolada conseguiu reescrever o seu PIB através de uma sigla, o que impede uma PME portuguesa de otimizar a sua cadeia de valor e ganhar escala global?
O risco real não é a Tecnologia, é a Inércia
O maior risco atual não é investir em IA e enfrentar uma curva de aprendizagem. O maior risco é não fazer nada e ter sucesso no curto prazo, acreditando ilusoriamente que o modelo de negócio atual é eterno. A inércia tem um custo invisível, mas brutal: a perda de relevância.
A transformação estratégica exige que paremos de tratar a IA como um acessório e passemos a olhá-la como o motor central da operação. Se a sua equipa ainda gasta 80% do tempo em tarefas administrativas repetitivas e manuais, a empresa não tem apenas um problema de produtividade; tem um problema de visão.
Enquanto hesita, o seu concorrente está a reduzir custos operacionais e a personalizar a experiência do cliente a uma velocidade que o fará parecer pré-histórico em menos de dois anos.
O Despertar ou o Abismo
O tempo das conferências e da reflexão académica terminou. Entrámos na fase da execução implacável. A história de Anguilla prova que não é preciso ser um gigante para ganhar com a revolução digital; é preciso ser ágil, estar atento e, acima de tudo, ter a coragem de agir enquanto os outros ainda debatem o conceito.
Portugal tem talento, tem infraestrutura e tem uma resiliência comprovada. O que nos falta, muitas vezes, é a audácia de quebrar com o “sempre se fez assim”.
A IA não vai esperar pela sua empresa, nem pelo mercado português. A janela de oportunidade está a fechar-se. Ou se torna o protagonista da sua própria transformação, ou será apenas um espectador da prosperidade alheia.
O seu “.ai” está à espera; resta saber se terá a visão para o registar.
Autor
Luis Almeida
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