O Caminho da IA: Inovação, Ética e Transformação

“O Caminho da IA: Inovação, Ética e Transformação”

“Como a Inteligência Artificial está a redefinir negócios, sociedade e governação — oportunidades e desafios éticos incluídos.”

Hélder Quintela
Docente convidado do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave
Presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Business Intelligence

A transformação provocada pela utilização da Inteligência Artificial em tarefas complexas, mas também nas mais banais, deixou de ser exceção, passando a fazer parte do quotidiano. O que estamos a viver representa não apenas uma transformação tecnológica, mas uma verdadeira rutura histórica. Depois do vapor, da eletricidade e da computação, chegámos à era da Inteligência Artificial — não apenas ao nível do conceito ou da experimentação, mas da sua efetiva produtização.

Mas porque é que estamos perante uma revolução marcada pelos dados e pela Inteligência Artificial, e não apenas uma etapa de evolução?

Porque o impacto ultrapassa os artefactos e os processos, afetando de forma transversal praticamente todas as áreas da sociedade: a legislação (por exemplo, laboral e de regulação da utilização), a filosofia — em particular a ética aplicada —, a educação, com novas competências e modelos educacionais, a governação e até a organização geopolítica.

Entre estas áreas, o direito é relevante porque a ausência de regras claras e proporcionais não gera inovação sustentável, gera assimetria de poder, insegurança jurídica e perda de confiança — um terreno fértil para conflitos sociais e económicos, precisamente aquilo que a regulação europeia da Inteligência Artificial (AI Act) procura evitar. Ainda assim, esse esforço regulatório deve ser equilibrado, assegurando que não se transforma num entrave excessivo à inovação e ao progresso.

Um dos riscos mais preocupantes na utilização de Inteligência Artificial, em particular da IA Generativa é a garantia de veracidade dos conteúdos produzidos e partilhados de forma massiva em plataformas de redes sociais. Por exemplo, se antes uma fotografia, um vídeo, um som, poderia facilmente ser considerado um meio de prova num processo judicial, hoje essa presunção deixou de ser absoluta.

 


A Revolução da IA: Oportunidades e Desafios. Infografia gerada com IA Generativa, Google NotebookLLM.

Da experimentação à adoção

E se até agora o foco esteve focado na tecnologia, nos modelos e na sua evolução, com organizações a procurarem espaço para realizarem provas de conceito, este é o momento da produtização, da realização projetos com retorno de investimento, com grande atenção no impacto no negócio e controlo de custos.

No entanto, apesar de todos os receios, este é também o momento de progredir. A utilização da Inteligência Artificial tem impactos significativos na eficácia e na eficiência, permitindo fazer mais e melhor, com um elevado grau de valor acrescentado. Mais do que ganhos operacionais, a IA abre a possibilidade de enfrentar problemas estruturais da sociedade – saúde, mobilidade, habitação, agricultura, finanças, justiça – que, até hoje, permaneceram sem resposta devido a limitações de conhecimento, técnicas e tecnológicas.

Segundo o estudo “Global AI Adoption in 2025 – A Widening Digital Divide”, recentemente apresentado pela Microsoft, a adoção mundial de ferramentas de IA Generativa continuou a crescer em 2025, com 1 em cada 6 pessoas (16,3% da população mundial) a utilizar IA para aprender, trabalhar ou resolver problemas, com uma maior utilização no hemisfério norte (24,7%) relativamente ao sul (14,1%).

Políticas públicas, infraestruturas digitais, e acesso a modelos gratuitos e open-source favorem a utilização da IA

Ainda sobre estudo, de relevar que o país mais avançado em infraestrutura digital, formação e políticas de IA são os Emirados Árabes Unidos, com 64% da população a utilizar IA, resultado de uma estratégia nacional de IA desde 2017, de um forte investimento em confiança pública, formação e inovação, e em sandboxes (ambientes de teste seguros para novas soluções), vistos para talento em IA e adoção generalizada e, serviços públicos.

Os dados confirmam que o crescimento na utilização da IA é real e significativo, que países com políticas públicas fortes – exemplo da Agenda Nacional de IA – e infraestruturas digitais maduras assumem a liderança, e que a acessibilidade a modelos gratuitos e open-source poderá definir o próximo salto global.

 

Utilização da Inteligência Artificial por país (2.º semestre de 2025), Fonte: “Global AI Adoption in 2025 – A Widening Digital Divide”, Microsoft – AI Economy Institute, 2026, https://www.microsoft.com/en-us/research/wp-content/uploads/2026/01/Microsoft-AI-Diffusion-Report-2025-H2.pdf

Em Davos, Kristalina Georgieva, Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), partilhou há dias dois dados relevantes: a utilização da IA poderá aumentar o crescimento económico global em 0,8%, e cerca de 60% dos empregos nas economias desenvolvidas podem ser afetados. Estes números reforçam que não se trata apenas de transferir funções para a IA, mas de uma colaboração crescente entre humanos e agentes inteligentes na execução de tarefas.

A Inteligência Artificial deixou de ser apenas tecnologia: é agora um motor de transformação social, económica e política. A sua adoção crescente oferece oportunidades únicas, mas também desafios éticos e legais que exigem ação consciente. O futuro depende de como sociedade, empresas e governos a utilizam para criar valor e resolver problemas complexos, sendo certo que é um caminho sem retorno, em que os “velhos do Restelo” ficarão no passado.