Business Intelligence nas Agriculturas de Portugal

Por José Martino, Engenheiro Agrónomo, CEO da Espaço Visual — Consultores de Engenharia  Agronómica 

As agriculturas de Portugal enfrentam, neste momento, uma dupla exigência: serem  economicamente sustentáveis num mercado global cada vez mais competitivo e  produzirem mais com menos recursos, menos mão-de-obra e maior responsabilidade  ambiental. É neste contexto que o Business Intelligence (BI) surge não como luxo  tecnológico, mas como ferramenta estratégica indispensável.  

Costumo afirmar que os dados são o «petróleo do século XXI». Na agricultura, esse  petróleo encontra-se em todo o lado: nas estações meteorológicas, nas sondas de  humidade do solo, nos cadernos de campo digitais, nas imagens de satélite e nos  registos de produção por parcela. O problema já não é a falta de dados; é a sua  dispersão e a falta de normalização para os integrar numa plataforma capaz de  produzir informação útil à decisão.  

Uso deliberadamente o plural — agriculturas de Portugal — porque não existe uma  única agricultura no nosso país. Coexistem realidades muito distintas: do sequeiro ao  regadio, da policultura à monocultura, das pequenas explorações familiares às  grandes empresas exportadoras. Qualquer estratégia de BI tem de respeitar esta  diversidade, sob pena de gerar soluções acessíveis apenas a uma minoria.  

A aplicação mais madura é a gestão inteligente da rega: cruzar dados das  necessidades hídricas das plantas, humidade do solo, evapotranspiração e previsões  meteorológicas para automatizar decisões é BI aplicado à exploração diária. Nas  explorações de bovinos leiteiros, os robôs de ordenha geram milhares de dados por  animal — produção, composição do leite, saúde do úbere — que, tratados por  sistemas de BI, permitem melhorar a produtividade, reduzir custos e salvar a  viabilidade económica da fileira.  

Os dois pilares da competitividade continuam a ser os mesmos: aumentar a  produtividade e controlar rigorosamente os custos. É aqui que o BI assume um papel  decisivo. A análise integrada da informação permite tomar decisões mais rápidas e  mais rentáveis — concretizando o verdadeiro conceito de intensificação sustentável:  produzir mais valor com os mesmos recursos, minimizando o impacto ambiental.  

O maior desafio não é tecnológico — é organizacional. Cerca de 71% das explorações  nacionais têm menos de cinco hectares, inviabilizando investimentos individuais em  plataformas sofisticadas. A digitalização terá de ser promovida por organizações de  produtores, cooperativas e associações agrícolas, que disponibilizem soluções  partilhadas e reduzam os custos de acesso. A democratização do BI passa por este  modelo colaborativo. 

Uma última nota de prudência. As máquinas serão capazes de executar tarefas e  gerar recomendações, mas a decisão continuará a pertencer ao empresário agrícola:  ler o terreno, interpretar os dados à luz de cada exploração, avaliar o risco e agir no  momento certo são competências que nenhum algoritmo substitui. A literacia digital  fará a diferença entre o sucesso e o fracasso. A grande revolução das agriculturas de  Portugal dependerá das organizações dos agricultores os ajudarem a transformar  com sucesso, dados em conhecimento e conhecimento em valor acrescentado. 

Autor
José Martino
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